Então e aonde andavas tu a 25 de Abril de 74? Não andava. Que eu sou uma rapariguinha jovem.
Abril, esse mês de pseudo – Liberdade. Pseudo-liberdades.
Quem subir ao segundo andar da Escola do 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico da Serra da Gardunha, quem percorrer aquele corredor, descobre lá dois quadros pintados por mim. Teria eu uns dez ou onze anos e pintava e Abril era liberdade. Que bem que, nas escolas, nos foi ensinado Abril. Ou não. Porque se ensina sempre ou quase sempre só uma face da moeda. Muito mais cara do que coroa. E Abril era(-me) bonito. E Abril sempre me foi bonito em casa de pais comun(ist)as. Zeca Afonso – ainda andei ao colo dele, pelo menos uma vez – Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco e mais uma quantidade da cantores de intervenção, de coisas de invervenção. Sempre pessoas a pensar que “Tu sozinho não és nada/Juntos temos o Mundo na mão”.
(E ridículo que isto é? Temos que ser sempre primeiro nós para depois sermos os outros e nem vou explicar isto melhor. É tão básico, tão básico.)
Foi sempre assim. Uma cara de moeda. Uma coroa para uma ditadura morta. Os nossos cravos. Que não são meus ou teus, porque não somos seres individuais. Abril relembrado a cada dia 25, ou no funeral do sr. Cunhal ou quando aparecia o sr. Carvalhas e agora aparece o sr. Jerónimo a falar de agricultura e pecuária e trabalhadores.
(Desculpem, nunca ouvi comun(ist)as a falar sobre mais nada.)
Abril assim: duas-três vezes num ano, uma “Grândola, Vila Morena”, uma meia dúzia de cravos vermelhos e um “Ai-que-bom-que-nos-livrámos-daquele-homem”. É agora, que me espreita a hipocrisia, porque quem faz Abril duas-três vezes num ano não o faz 365-366 dias. Não protesta, não grita, não barafusta. Cala-se e tem medo e não é livre e não é nada. Porque precisa sempre de outros para o fazer ou porque nunca deixou de se submeter e parece-me não vai deixar tão cedo.
Agora a minha cara. E a minha coroa. Agora eu: moeda inteira, humana inteira, mulher inteira: eu amo a liberdade. Eu não saberia viver com PIDE´s nem com aquelas tretas impostas pelo Dr. Salazar. Aquelas arreigações todas. O ter que pertencer a isto e aquilo e não sei não sei que mais. Eu não era capaz de respirar em regime ditatorial. Preciso de Liberdade como de pão para a boca. No entanto, indignam-me os extremismos. Salazar não fez só coisas más, pelo menos, por exemplo, havia trabalho que não há agora. Havia mais respeito. Havia amor à Pátria. E que pena que eu tenho que não se ame este país. Que “nos” tenhamos esquecido de onde viemos e o que “fizemos”. O quão grande somos. Sou a favor de uma troca de culturas, sempre. Mas gostava de “nos” ver ver com mais amor ao que somos, à nossa imensidão. Gostava de sabermos mais nacionalistas. Como no tempo daquele senhor.
Zanga-me a ditadura, mas zanga-me ter liberdade e não a poder usar. E zanga-me que as pessoas se esqueçam que são elas, mas no sentido mais genuíno e amoroso de ser. Zanga-me que não se grite.
Quero um Abril que respeite a tradição, que respeite o país. Quero um Abril sem máscaras e sem mágoas. Quero um Abril a sério. Urgentemente.
E venha de lá o Largo em Santa Comba Dão. Porque há Abril.
Querida Joana,
como já tive oportunidade de o dizer no Estado Sentido, foi mesmo um cantor de intervenção desses tão cliché que o resumiu em poucas palavras: saem tod@s à rua de cravo na mão sem se aperceberem que saem à rua de cravo na mão a horas certas.
É bom ver uma moeda inteira. É preciso proliferar o que os humanos inteiros pensam
Não gosto de nacionalismos. Gosto de Abril e de pensar que não nos vamos esquecer de não retroceder…
Só isso. As comemorações e as datas servem para lembrarmos. E muito há para fazer. Essas portas que Abril não abriu são talvez para nós abrirmos.
Um beijo.